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9 de novembro de 2015

Depois do terceiro dia...




Depois do terceiro dia...

Depois do terceiro dia eu não consegui mais escrever, porque eu não sabia o que pôr no papel, eu não sabia se ainda sentia algo, ou se restava algo. Há dias bons, dias em que eu sorrio, onde eu posso caminhar sem medo, só que nesses dias eu não estou sozinha, estou sempre com alguém. Há dias em que tudo parece colorido, onde dá para sentir a primavera na pele. Há dias onde há tudo, um tudo que é meu todo, só que nesses dias estou sempre com alguém. É com vicio, assim como os remédios, para estar bem eu preciso estar com alguém, se não tem ninguém, não tem nada.

Estar sozinha é como uma prisão. É estar todos os dias na solitária. É querer fugir, mas, não há saídas. O medo, o frio instala-se dentro e fora, fora e dentro. Não há nada, sobra um eco alto de dor. Sobra o silêncio e o vazio.

Uma noite dessas eu me joguei na noite, no álcool, eu afundei na música, na batida, eu me joguei para não fazer pior. Eu procurei a escuridão da noite e lá afundada na água ardente eu encontrei um pouco de sossego, as vozes na cabeça não estavam mais lá. Ficou a música os corpos dançando, risadas, pessoas pelos cantos, no banheiro. Naquela noite me deixei ir sem medo ao fundo do poço.

Se cheguei em casa? Não sei. Se dormi? Muito menos. Eu não lembro de tudo, apenas de estar onde não deveria, de chegar ao limite da exaustão. O corpo e a mente cobraram no outro dia, e então eu percebi o que deveria ter percebido a muito tempo: eu nunca me recuperei.

Eu jamais me perdoei por durante muito tempo ter deixado coisas me afetarem, tudo o que aconteceu há quase dez anos definiu o resto de hoje. Definiu o que eu não poderia ser, o que eu inventei de mim mesma. Me joguei sem medo dentro de mim e fechei espaço para outras pessoas, eu afastei todo mundo, todos. Me isolei. Sentir doía, lembrar doía, sonhar não me deixava dormir porque se tornava pesadelo. Pesadelos sem fim.

Não foi no primeiro dia que me joguei, foi há anos atrás quando isolei tudo o que sentia e tentei ser o que não era. Confiante, forte, fria. Montei uma farsa de mim mesmo, montei uma peça de teatro e encenei cada cena, falava o que havia ensaiado não o que pensava, usava o que não queria, e fazia de tudo para agradar a plateia. Bom, eu não agradei, eu não consegui. E eu ainda me pergunto se posso se quer sobreviver aos próximos dias.

Então se você que está lendo isso acha que as coisas são fáceis porque ainda posso escrever sobre isso, saiba que não é. Às vezes, é difícil falar, é difícil demonstrar, se quer eu posso sorrir de verdade. Por trás de sorrisos nem sempre há felicidade, na grande maioria das vezes, tem dor, tem sentimentos ruins, tem autodestruição.

Naquela noite com o fogo ardendo nas minhas veias eu pude sentir o quão fundo cheguei, eu pude pela primeira vez entender que nem eu sei de mim mesma, que não sei lidar com nada, nem com o que aconteceu há dez anos, nem com o que está acontecendo agora, porque fugi. Fugi de tudo e me escondi, só que a vida vem cobrar, e ela está me cobrando agora.

Será que se pode suportar?

- Mai Passos G




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